R$ 4.430 a menos para o cafeicultor Colombiano
- Felipe Caltabiano

- 11 de set. de 2025
- 4 min de leitura

Introdução
Acabei de voltar de uma missão em Huila, na Colômbia, onde passei alguns dias conhecendo agricultores, cooperativas e instituições ligadas ao café. E o maior gargalo que encontrei na produção cafeeira não estava ligado a práticas de campo. Estava fora da lavoura: na infraestrutura de processamento.
Eu imaginava encontrar desafios semelhantes aos do Brasil: adubação inadequada, solos degradados, arranjos de plantio tradicionais. Tudo isso, de fato, está presente. Mas o maior e principal desafio e oportunidade dos cafeicultores na Colômbia está no que acontece após a colheita: o beneficiamento primário do café.
O Contexto
Os agricultores de Huila trabalham em pequenas propriedades — em média 1,4 hectare — em encostas muito íngremes. O sistema de cultivo é simples, com arranjos de plantio tradicionais (ex.: 1,2 x 1,2 m), em contraste com os arranjos modernos que poderiam otimizar densidade e manejo (como 3,5 x 0,5 m). Além disso, grande parte das áreas apresenta solos degradados. Alguns agricultores praticam agrofloresta básica com banana e espécies nativas.
Mesmo assim, a produtividade média em Huila chega a 15,8 cargas / ha de café pergaminho seco (a semente de café ainda com a última casca), o que equivale a cerca de 1.580 kg / ha de café verde (o café já descascado e pronto para a torrefação). No Brasil, em 2024, a produtividade média de café arábica foi de 26,2 sacas/ha, ou aproximadamente 1.572 kg de café verde/ha. Ou seja, mesmo com baixa tecnologia, os produtores de Huila estão ombro a ombro com a média brasileira.
Mais impressionante ainda é que agricultores que seguem protocolos técnicos de manejo e nutrição chegam a superar 30 cargas/ha — mais de 3.000 kg / ha de café verde, o dobro da média nacional brasileira.
Mas diferentemente do Brasil, onde produtores costumam secar o café pelo método natural (café seca com casca e polpa), os produtores colombiano utilizam o método descascado (o café tem sua casca mais externa, polpa e mucilagem retiradas antes da secagem), que reduz o risco de fermentações indesejadas e o tempo necessário para secar o café antes de ele ser levado para o beneficiamento final (retirada do pergaminho).

O Desafio
Cerca de 60% dos produtores não têm como secar o café em suas fazendas. Eles apenas despolpam o café e retiram a mucilagem, mas entregam o pergaminho ainda úmido para as cooperativas, que precisam utilizar secadores para secar o pergaminho antes de descascá-lo.
Entregar o pergaminho ainda úmido para as cooperativas tem diversas consequências:
Preço mais baixo: o produtor receber COP 200.000 a menos por carga, totalizando COP 3.16.000 / ha (com produtividade de 15,8 cargas). Isso equivale e a R$ 4.430 / ha.
Qualidade inferior: o café pode perder qualidade, devido a fermentações indesejadas causadas pelo tempo que passar úmido em transporte
Impacto ambiental: as cooperativas queimam a casca para secar o café pergaminho úmido. Se todo o pergaminho produzido em Huila for queimado, pode=se liberar até 86 milhões de toneladas de CO₂ equivalente por ano. Isso é matéria orgânica que poderia estar voltando para o solo.
Ou seja, não é apenas a adubação inadequada, os solos degradados ou os arranjos de plantio tradicionais que mais limitam a renda desses agricultores. O verdadeiro gargalo está na ausência de infraestrutura básica de processamento.

A Oportunidade
Com investimentos relativamente simples — um prédio de beneficiamento, descascador, desmucilador, tanques de fermentação e secadores solares melhorados — o cenário muda completamente:
O agricultor mantém mais valor na fazenda.
A qualidade melhora, abrindo portas para mercados diferenciados.
A pegada de carbono diminui drasticamente, já que as cascas poderiam voltar às propriedades como insumo para compostagem em vez de serem queimadas.
O transporte fica mais eficiente, já que o pergaminho seco pesa menos.

Reflexão
Essa experiência reforçou ainda mais em mim algo que vale não só para o cafeicultor colombiano, mas para qualquer agricultor: práticas agronômicas, por si só, não resolvem todos os problemas. Manejo, adubação e preparo de solo são fundamentais, mas a atividade agrícola é um sistema complexo. Planejar bem uma fazenda envolve pensar também em infraestrutura, logística, agregação de valor e sustentabilidade.
Em Huila, o salto de produtividade e renda não virá de mais adubos ou de ajustes nos arranjos de plantio. Virá da capacidade de transformar café cereja em pergaminho seco de qualidade dentro da própria fazenda.
Conclusão
Se você quer uma agricultura verdadeiramente regenerativa e sustentável, precisa ampliar sua visão: enxergar além da lavoura e olhar para toda a cadeia. Muitas vezes, o investimento de maior retorno não está em mais insumos ou novas técnicas de plantio, mas em infraestrutura inteligente que conecta o campo ao mercado de forma mais justa, eficiente e sustentável.
E você? Qual seria a uma única mudança de infraestrutura que faria a maior diferença na sua produção hoje?


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